A seguinte entrevista foi concedida, via email, pela Companhia de Teatro, Partículas Elementares, ao blogue da Biblioteca M. de V.N. de Gaia.
Ficámos a saber que a Companhia privilegia “acima de tudo as relações humanas” num clima de “ confiança e cumplicidade” com as crianças, bem patente ao longo de todo espectáculo, a que assistimos na Biblioteca. Sobre as suas referências, pergunta atiçada pela nossa curiosidade, disseram-nos ser variadas (tendo em conta o colectivo de pessoas) mas com um denominador comum, “o fantástico”: neste aspecto, os artistas surpreenderam-nos, revelando-se “eles próprios”, facto muito raro nos dias que correm. Bastava-nos isso para compreender o que são as Partículas. Vêem o teatro de Marionetas como um desafio, a melhor forma de se expressarem humana e artisticamente, pois é um campo muito abrangente, uma arte que engloba outras formas de arte: alguns referiram-se à arte contemporânea como “arte total”.
Quem escreveu o texto de O Problema do Corvo?
O texto surgiu de uma ideia que foi crescendo colectivamente, mas foi um dos colaboradores habituais da companhia (Martinho Santos) que dramatizou toda essa ideia.
Há algo em especial que privilegiam no vosso trabalho?
Privilegiamos acima de tudo as relações humanas. Para nós o espectáculo começa logo que as crianças entram na sala. Tentamos sempre estabelecer previamente uma relação de confiança e cumplicidade com elas, para assim as tornar mais receptivas e participativas.
Na concepção do espectáculo damos especial importância à música, às cores, aos materiais e ao tipo de linguagem utilizado. Todos os pormenores são criteriosamente estudados pela nossa equipa, porque são esses pormenores, que vão pouco a pouco abrindo as portas do sonho e da imaginação.
Quais as vossas referências em termos de companhias nacionais e estrangeiras?
Dos elementos que integram a companhia, não existe unanimidade quanto a esta ou aquela referência. Mas como trabalhamos muito próximo do fantástico, da magia e do surreal, qualquer coisa pode servir como referência para o início de um novo espectáculo, desde que nos faça sonhar. Depois disso, todos caminhamos na mesma direcção e as coisas crescem por si.
À parte isso, todos os que trabalham, brincam e criam com marionetas, quer sejam nacionais ou estrangeiras, são referências.
Como chegaram ao teatro de marionetas? Porque razão fazem o que fazem?
Porque o teatro de marionetas é uma arte em que se fundem imensas artes. A escultura, a música, o teatro, a magia, a poesia, a pintura, etc. E é para nós um desafio muito maior conciliar todas estas artes, que em conjunto nos permitem coisas que de outra forma não era possível.
Comos chegamos até aqui….já não sei, o que eu sei é que, assim que se chega já não se consegue sair.
As vossas formações académicas têm alguma relação com o vosso trabalho?
Nenhum de nós tem formação académica na área das marionetas, até porque em Portugal isso seria de todo impossível. No entanto, todos conseguimos adaptar as diferentes formações académicas a esta realidade, e dar importantes e diferentes contributos na criação. Tudo o resto vem com a pesquisa, leitura, experimentação, prática e por fim…experiência que se vai adquirindo ao longo dos anos.
A Companhia de Teatro de marionetas, Partículas Elementares, levou à cena no pequeno auditório da Biblioteca Municipal de V.N. de Gaia (dias 9 e 10 de Abril, em duas sessões diárias), a peça para alunos do pré-escolar e 1º ciclo, “O problema do Corvo”.
Fundada em 2003, em Valpaços (Trás-os-Montes), a companhia tem as suas instalações na cidade de Ovar. João Costa, director de produção, Leonor Bandeira (encenação, cenografia e marionetas) e Carlos Silva (intérprete e cenografia) são as Partículas Elementares, a que se junta, esporadicamente, uma equipa interdisciplinar (com destaque para psicológos).
Um corvo que se acha o mais rápido a voar e o mais bonito, um corvo que se gaba de ir passear à Lua num foguetão de muitas asas e inúmeros motores, um corvo que diz possuir um candeeiro que comprou na China, tem um problema. É um corvo com mais asas do que as que tem, como os meninos com imaginação fecunda. O seu nome é Cardoso e rima com mentiroso. Neste amontoado de mentiras deste Romeu, apaixonado pela gralha Julieta, o seu coração é o núcleo de verdade.
A descoberta, por Julieta, do caderno onde o namorado anota, profissionalmente, as suas patranhas, é o momento que marca verdadeiramente o início da acção que leva o sábio ouriço Felício a reunir a assembleia de vizinhos (todos animais), para deliberar uma medida conducente à regeneração de Cardoso e à reconciliação com a namorada, que, com tantos embustes, já não acredita no amor do corvo. Na verdade, não são bem mentiras mas sim realidades fruto da sua imaginação, um meio para conquistar os afectos dos outros.
O “Problema do Corvo” reescreve, de forma original, o problema da inadaptação ao mundo dos adultos, em que o universo da fantasia (mentiras) não é mais do que o enclausurado universo interior, desalinhado, em processo de assimilação das regras que regem a sociedade.
O espectáculo, dirigido fundamentalmente a crianças do pré-escolar e do 1º ciclo, lança uma piscadela de olho aos adultos da assistência: o episódio da rolha e da ASAE ou o do laboratório do mágico, em que este afirma que a poção para mentirosos “tem muita saída”.
A interacção entre palco e plateia é bastante eficaz, pois há uma franca receptividade dos miúdos. A dada altura, Carlos Silva estabelece um curto diálogo com uma das marionetas, diluindo-se a fronteira entre mundo real e de ficção: como se o intérprete se transformasse numa das personagens.
O trabalho de cenografia é sóbrio e apelativo da imaginação, isto é, de todas as possibilidades que contem um objecto que se pode fechar e abrir (ocultar e revelar), como um brinquedo: três caixotes sobre uma mesa, caixotes que se podem transformar numa assembleia, na casa do corvo, na mesa do laboratório do mágico, no muro da lagartixa.
Do conjunto das marionetas, destacam-se, como objecto, as galinhas, não tão coladas à sua figura real, cujo corpo tem forma de ovo com pernas.
O único senão, a meu ver, é a aplicação duma medida mágico-violenta (o martelo e a cantilena) para a resolução dum problema de mentira compulsiva, facto contraditório com o que ouvimos nas medidas da assembleia, nitidamente anti-violentas (arrancar ao uma pena por cada mentira ou fechar-lhe a boca com fita adesiva). Neste caso, não haveria alternativa?
A.M.
O Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, defendeu que Fernando Pessoa, enquanto produto de exportação da língua portuguesa, pode valer mais em termos económicos do que a Portugal Telecom (PT). Na mesma altura o ministro anunciou a realização de um estudo sobre o valor económico da língua portuguesa, em colaboração com o Brasil, que vai incidir sobre os oito países de língua oficial portuguesa e as comunidades portuguesas espalhadas pelo Mundo. No discurso que proferiu em Montemor-o-Velho, Pinto Ribeiro aludiu, igualmente, à importância do acordo ortográfico. (fonte: RTP.pt) Através de Mundo Pessoa