A Companhia de Teatro de marionetas, Partículas Elementares, levou à cena no pequeno auditório da Biblioteca Municipal de V.N. de Gaia (dias 9 e 10 de Abril, em duas sessões diárias), a peça para alunos do pré-escolar e 1º ciclo, “O problema do Corvo”.
Fundada em 2003, em Valpaços (Trás-os-Montes), a companhia tem as suas instalações na cidade de Ovar. João Costa, director de produção, Leonor Bandeira (encenação, cenografia e marionetas) e Carlos Silva (intérprete e cenografia) são as Partículas Elementares, a que se junta, esporadicamente, uma equipa interdisciplinar (com destaque para psicológos).
Um corvo que se acha o mais rápido a voar e o mais bonito, um corvo que se gaba de ir passear à Lua num foguetão de muitas asas e inúmeros motores, um corvo que diz possuir um candeeiro que comprou na China, tem um problema. É um corvo com mais asas do que as que tem, como os meninos com imaginação fecunda. O seu nome é Cardoso e rima com mentiroso. Neste amontoado de mentiras deste Romeu, apaixonado pela gralha Julieta, o seu coração é o núcleo de verdade.
A descoberta, por Julieta, do caderno onde o namorado anota, profissionalmente, as suas patranhas, é o momento que marca verdadeiramente o início da acção que leva o sábio ouriço Felício a reunir a assembleia de vizinhos (todos animais), para deliberar uma medida conducente à regeneração de Cardoso e à reconciliação com a namorada, que, com tantos embustes, já não acredita no amor do corvo. Na verdade, não são bem mentiras mas sim realidades fruto da sua imaginação, um meio para conquistar os afectos dos outros.
O “Problema do Corvo” reescreve, de forma original, o problema da inadaptação ao mundo dos adultos, em que o universo da fantasia (mentiras) não é mais do que o enclausurado universo interior, desalinhado, em processo de assimilação das regras que regem a sociedade.
O espectáculo, dirigido fundamentalmente a crianças do pré-escolar e do 1º ciclo, lança uma piscadela de olho aos adultos da assistência: o episódio da rolha e da ASAE ou o do laboratório do mágico, em que este afirma que a poção para mentirosos “tem muita saída”.
A interacção entre palco e plateia é bastante eficaz, pois há uma franca receptividade dos miúdos. A dada altura, Carlos Silva estabelece um curto diálogo com uma das marionetas, diluindo-se a fronteira entre mundo real e de ficção: como se o intérprete se transformasse numa das personagens.
O trabalho de cenografia é sóbrio e apelativo da imaginação, isto é, de todas as possibilidades que contem um objecto que se pode fechar e abrir (ocultar e revelar), como um brinquedo: três caixotes sobre uma mesa, caixotes que se podem transformar numa assembleia, na casa do corvo, na mesa do laboratório do mágico, no muro da lagartixa.
Do conjunto das marionetas, destacam-se, como objecto, as galinhas, não tão coladas à sua figura real, cujo corpo tem forma de ovo com pernas.
O único senão, a meu ver, é a aplicação duma medida mágico-violenta (o martelo e a cantilena) para a resolução dum problema de mentira compulsiva, facto contraditório com o que ouvimos nas medidas da assembleia, nitidamente anti-violentas (arrancar ao uma pena por cada mentira ou fechar-lhe a boca com fita adesiva). Neste caso, não haveria alternativa?
A.M.

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